jornal arquitectos
Design Pedro Falcão
© Daniel Malhão
Tempo
31.01.2008
A permanência da arquitectura não é apenas uma consequência da sua materialidade. A possibilidade de permanência reflecte principalmente o olhar consciente de sucessivas gerações, sobre o papel do tempo numa comunidade, sobre a relevância da memória e singularidade de determinados espaços públicos, edifícios e cidades.
A densidade daquilo que resistiu, bem como a sua naturalidade desafiadora, sempre gerou fascínio nos arquitectos no momento do projecto – como se os vários modos de permanência habitassem o horizonte de expectativa dos arquitectos. E este fascínio mantém-se, por existir a possibilidade – que dificilmente se cumpre – de que o tempo se incorpore na arquitectura.

A densidade e a permanência no tempo aparentavam ser inconciliáveis com a tradição de novo inaugurada pelo pensamento moderno. As vanguardas históricas introduziram o domínio do conceptual sobre a produção da arte e da arquitectura, relativizando a permanência física do objecto – por vezes mesmo dispensando-a. Este processo conduziu a arquitectura à condição limite de aspirar trabalhar sobre pressupostos de imaterialidade, ausência de gravidade e mobilidade.

Mas simultaneamente o mundo contemporâneo encontrou, através da crítica ao moderno no final do século XX, que hoje convencionalmente chamamos condição pós-moderna, modos inesperados de relação com a tradição de imutabilidade dos princípios arquitectónicos, mas não necessariamente com a História. Se o cânone está longe de ser uma linguagem operativa, e se a materialidade da arquitectura clássica poderá hoje parecer estranha ao nosso enquadramento civilizacional, qual é a relação possível da arquitectura com o tempo longo?

Num artigo intitulado “Junkspace”, Rem Koolhaas afirma que os edifícios podem perder partes, abdicar ou prescindir de troços, continuando a existir até ao infinito alheados da mutilação, graças ao desempenho da infra-estrutura. Mesmo num mundo de predomínio da infra-estrutura sobre a matéria, o desejo de permanência encerra-se nas mais inesperadas estratégias arquitectónicas.

O artifício conceptual da arquitectura afrontou a sua nova condição existencial na contemporaneidade e “monumentalizou” o efémero, construindo-o como perene. Das lojas que são desenhadas com materiais que duram para sempre, até aos museus cuja importância urbana e programática lhes garante uma permanência de longa duração e no entanto se mantêm permeáveis à transformação material, passando pela restauro conservador da frágil arquitectura moderna produzida há menos de um século.

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