jornal arquitectos
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© Daniel Malhão
Público
04.12.2007
O domínio do “público” nunca conheceu como hoje uma ambiguidade relativa à sua delimitação e identificação colectiva. A falência do espaço público na cidade contemporânea gerou mercado para a proliferação de condomínios fechados, privatizando aquilo que sempre foi considerado público, a rua. O centro comercial e a televisão acabaram por esboroar ainda mais o já frágil dualismo público/privado.
Os espaços de uso público em Portugal têm hoje dois tipos de génese: ou são promovidos por instituições públicas ou pela iniciativa privada, esta última sempre associada ao consumo.
No primeiro caso as instituições procuram (ou são constrangidas a) construir lugares de pertença – por vezes com sucesso, por vezes reféns de modelos desadequados associados a uma ideia de progresso. Mas o resultado da acção pública deveria ser, sempre, a produção de espaço onde as populações pudessem construir bases mais sólidas de cidadania.
Da iniciativa privada resulta uma dinâmica e vitalidade de espaços percebidos por muitos como de uso público. Estes têm como base estratégias bem sucedidas e com uma enorme adesão por parte das populações, desde que se assumam como consumidores – daí a associação às actividades lúdicas e recreativas que se generalizaram na sociedade actual em espaços privados.

O número de hipermercados e centros comerciais construídos nas últimas décadas comprovam que estes programas estão numa fase de crescimento. Em poucas décadas as zonas comerciais das cidades (os seus centros) esvaziaram-se e os espaços privados de consumo popularizaram-se. Os antigos utilizadores dos mercados e das feiras, das zonas periféricas das cidades principais e das zonas de contacto entre o campo e as áreas urbanas, mudaram de hábitos de consumo e, com o mesmo estímulo, aderiram às grandes superfícies cobertas.
Os valores publicitados anunciam vantagens como a diversidade, o conforto, a limpeza, abundância e a segurança.

Hoje assistimos a um fenómeno de reacção nos centros das cidades tradicionais. Confrontadas com a decadência e o abandono sucessivo, as instituições públicas procuram adequar os seus espaços públicos a programas em tudo semelhantes às estratégias testadas nos centros de consumo privados. Assim tornou-se recorrente a colocação de câmaras de vigilância nas principais artérias das cidades, a pedonalização de ruas, o estabelecimento de novos horários de funcionamento, mais compatíveis com as actividades diárias dos consumidores, e operações de marketing sobre as vantagens do regresso à cidade.
Quais são as implicações sociais destes fenómenos?

Neste JA abordam-se questões em torno da dicotomia público/privado, incluindo projectos que assumem o público como a sua génese, recuperando um alerta lançado em 1992 por Michael Sorkin: «Nos espaços “públicos” dos parques temáticos ou dos centros comerciais o discurso fica restringido: na Disneylandia não há manifestações.
O esforço por recuperar a cidade é a luta da própria democracia»
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