jornal arquitectos
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JA 249 Jan — Abr 2014 já disponível
09.05.2014
EDITORIAL
CONSTRUIR, É PRECISO

O que faz um arquitecto num lugar onde tudo está construído? O excesso de equipamentos e de habitações coloca vários desafios aos profissionais da construção em Portugal. Faz sentido continuar a construir? Esta dúvida explica, em parte, o interesse crescente por áreas da prática da arquitectura que exploram territórios menos convencionais. Instados a encontrar alternativas de trabalho, os arquitectos procuram valores alternativos a partir da sua forma específica de conhecer o mundo. Dessa procura resultam novos critérios de actuação e novas estratégias. Resulta, enfim, uma dimensão crítica fundamental para expandir – constantemente – a disciplina e a cultura arquitectónicas. É essa dimensão crítica que permite afirmar a utilidade da arquitectura, mesmo num lugar onde tudo está construído. Na verdade, é sempre preciso continuar a construir, porque a sociedade está sempre em construção. E é preciso construir melhor, em prol de razões melhores, para dar resposta a necessidades melhores.

Perante esta evidência, um primeiro aspecto a ter em conta é o conhecimento que a arquitectura vai acumulando como reserva de saber. Mesmo quando parece não haver nada para construir, importa levantar problemas, questionar modelos antigos, demolir e fazer outra vez, de outra maneira, melhor. É necessário construir para que os saberes da construção não se percam. Se não houver condições para isso, é preciso continuar a trabalhar para essa possibilidade. Continuar a exercitar a disciplina com vista à sua acção prática. Se essa acção não acontecer hoje, aqui e agora, pode vir a acontecer noutro lugar, ou noutro tempo. O segundo aspecto a ter em conta é que a realidade está em contínua transformação. O tempo continua a correr e faz sentir o seu efeito sobre as coisas, até que estas chegam ao fim. Tudo muda. Perante essa mudança constante, o saber do arquitecto é operativo em quase todos os momentos. Sem ele, não é verdadeiramente possível imaginar como se deve construir aquilo que precisa de ser feito.

Neste número do J–A, vários artigos dão conta disso. Os correspondentes trazem-nos notícias de terras onde ainda se constrói com confiança. Até em Veneza, um lugar à parte e supostamente congelado no seu próprio passado. Os dramas, desafios e contradições que os arquitectos encontram noutros lugares não são assim tão distintos dos problemas que enfrentamos em Portugal. O que é diferente é o contexto, a precariedade, as instituições e os cenários políticos em que os arquitectos, e a arquitectura, se movimentam. Um assunto, porém, está muito presente: a cidade, e o seu destino, um tema sobre o qual esta disciplina continua a ter uma palavra importante. Sendo uma forma de conhecimento, a arquitectura deve compreender a realidade urbana. Como aqui se diz, “porque a cidade é tão complexa e difícil de entender, este é o momento para os arquitectos dedicarem mais tempo a essa tarefa e não desistirem”. A cidade é, cada vez mais, o palco da sociedade e das suas mudanças – mesmo quando são violentas, como na demolição das Torres do Aleixo, no Porto. Compete aos arquitectos entender estes acontecimentos, até ao fim. E, em nome da cidade e de quem vive nela, aqui fazemos isso, com uma perspectiva que difere da “versão oficial” dos factos.

Os constrangimentos da produção actual implicam o regresso a escalas de trabalho que nunca saíram do raio de acção do arquitecto, nomeadamente a habitação unifamiliar. Construída ou por construir, a casa sempre foi um território de experimentação. Em plena recessão da encomenda privada, a vontade de fazer uma casa continua a ser um acto fundador. No seu plano mais restrito, os arquitectos fazem aquilo que talvez saibam fazer melhor: arquitectura. O J–A apresenta dois destes exemplos, ambos nos Açores. A manipulação formal e construtiva dos espaços, assim como o manuseamento da história e da cultura disciplinar, são ferramentas do ofício. É a destreza do seu uso que permite aos arquitectos agir com acutilância em cenários mais complexos, com interesses contraditórios e geometrias financeiras instáveis. Deste modo, a arquitectura também pode ser um instrumento ao serviço de negócios rentáveis, como a recuperação de uma técnica têxtil tradicional. Na serra da Estrela, empresários e arquitectos urdiram juntos a vontade partilhada de produzir qualidade, trabalho e – porque não? – riqueza. Precisamos dela, e de uma riqueza mais justa. A arquitectura contribui para isso e pode, e deve, contribuir para mais, e melhor.

Demolir, não demolir? Construir, não construir? Está tudo por fazer.

A direcção do J–A


Este texto será publicado no J-A 249, Jan — Abr 2014.


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