«Esta é a arquitectura a que tendes direito»
02.10.2006
Comecei por recusar. Por comodismo.
No dizer da arquitecta Helena Roseta seria necessário alguém exterior aos orgãos directivos que desempenhasse o papel de consciência da Ordem.
Uma espécie de grilinho do Pinóquio.
Quando a nossa estimadíssima presidente anunciou que me iriam convidar para o cargo de provedor da Arquitectura comecei por recusar. Por comodismo.
E também por entender que a figura de associação pública foi uma das mais imaginosas propostas vertida para a nossa constituição democrática.
Porque quando o Estado transfere para grupos de cidadãos atribuições que lhe são próprias dinamiza a participação e alarga a cidadania.
E como a Ordem dos Arquitectos é uma associação pública competir-lhe-ia, aos seus órgãos e especialmente à presidência do seu órgão nacional, assumir-se como provedora da população para os assuntos da arquitectura.
Foi-me respondido que o campo de actuação dos arquitectos e portanto da Ordem se foi dilatando e tão intrincadas são hoje as questões levantadas naquele território que se impunha chamar alguém que se ocupasse das multiplas e complexas relações, “ordem – arquitectos – população – estado” e que, senatorialmente, opinasse e tentasse esbater incompatibilidades, desvios, eventuais conflitos.
É bem verdade que o tecido associativo actual se plasma numa adaptação constante às mutações da sociedade. Sejam as associações empresariais, as Ordens ou os Sindicatos.
Por isso no dizer da arquitecta Helena Roseta seria necessário alguém exterior aos órgãos directivos que desempenhasse o papel de conciência da Ordem.
Uma espécie de grilinho do Pinóquio.
Sendo assim, aceitei.


Avolumaram-se de seguida outras razões de aceitação:
É que, tendo obtido o meu diploma de arquitecto em Setembro de 1957 logo nessa mesma data me inscrevi no Sindicato.
O que não sendo à data obrigatório se impunha civicamente.
Estimo que nos quase 50 anos que se seguiram, entre 20 a 30, estive quotidiamente ligado à vida sindical e associativa.
Nesse período colhi sabedoria de homens como Keil do Amaral, Teotóneo Pereira, José Rafael Botelho, Manuel Tainha, Formozinho Sanchez, Peres Fernandes, Fernando Peres, Celestino de Castro, Pires Martins e de mulheres como Maria do Carmo Matos e Olga Quintanilha.
O património que herdei dessa vivência não me pertence exclusivamente e impõe-se partilhá-lo.
E sendo assim aceitei com maior convicção.
Embora me pareça que a figura zoológica mais adequada à situação não seja o grilinho mas o dinossauro.
Um prudente e atento dinossauro.
Reservamos para o próximo congresso a apresentação de um programa de acção para além da tarefa de dar seguimento às queixas que eventualmente forem surgindo.

Adiantaremos, contudo:
Diz-se que em política os objectivos só se alcançam quando se reúne o querer, o saber e o poder.
Não nos faltará o querer, menos o saber, nada teremos do poder.
Só os sussurros do grilinho.
E aqui vão já alguns desses sussurros:

Junto à Ordem, para que corrija a deriva em relação ao espírito de uma associação pública, que a leva a olhar menos para a arquitectura e mais para os arquitectos e, entre estes, mais ainda para a minoria que se apossou, para sua glória, da arquitectura como objecto cultural.
Depois um sussuro para todos nós, afastado que seja o olhar sobre o nosso umbigo e calados todos os complexos de Demiurgo:

Que arquitectura vamos colocar perante os nossos concidadãos?
E dizer-lhes de seguida:
Esta é a arquitectura a que tendes direito.
Porque face a nós estará o imigrante da barraca derrubada, os homens e as mulheres do subúrbio, o suburbano, o burguês esmagado por taxas de esforço altíssimas e também a criança e o idoso, o doente e o saudável e o operário e o investidor, tanto ricos como pobres.

E que todos e cada um de nós possa responder conforme o seu saber sem a censura do modismo nem a pressão da fama.
Aqui teremos que juntar os nossos murmúrios, já transformados em gritos aos companheiros que se ocupam do direito à saúde, à educação, à mobilidade.
E passar de edifício à cidade.
E gritar, também, junto de todos os poderes contra a opacidade dos processos de licenciamento para que sejam garantidos a igualdade de oportunidades e o direito à livre escolha.
Assim faremos.

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