jornal arquitectos
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Desejo
24.06.2009
José Adrião Podemos começar por fazer o balanço desta série do JA. Tentar perceber o que resultou e o que falhou no projecto que nos propusemos desenvolver. O primeiro número foi lançado em Dezembro de 2005. Nessa altura a conjuntura do país era substancialmente diferente. A proposta de revista apresentada ao Concurso da Ordem dos Arquitectos não foi um projecto de ruptura, quer nos conteúdos, quer no formato. Propusemos uma plataforma de trabalho que surgiu de muitas conversas que o Ricardo Carvalho e eu fomos tendo ao longo do tempo e que, de uma maneira não programada, acabaram por se formalizar numa revista.
Propusemos abordar em cada número um tema específico e desenvolvê-lo em cinco secções, que nos ajudaram a organizar os conteúdos: a Crítica, o Projecto, a Persona, o Dossier e o Vírus.
A Crítica e o Projecto mantiveram uma abordagem relativamente convencional em relação às publicações do género. O Dossier procurou abrir os conteúdos a outros registos que não os estritamente disciplinares, e teve como objectivo produzir imagens de um país em mudança. Para isso convidámos o fotógrafo Daniel Malhão que seleccionou autores para reflectir sobre o tema lançado. Deste modo procurámos criar uma memória do Portugal contemporâneo. Por último, os cadernos Persona e Vírus que eram para mim os mais estimulantes e inovadores.
A Persona correu bem. Foram 12 conversas onde o discurso sobre a disciplina é bastante intenso.
O Vírus - uma revista dentro da revista - teve como objectivo abrir o JA ao exterior e a equipas auto-propostas que elaborassem conteúdos e contaminassem os cadernos principais. Simultaneamente procurou criar condições para que se formassem novas equipas editoriais que - pensávamos nós - poderiam vir a concorrer ao concurso seguinte. Desde o início, nunca colocámos a questão de voltar a concorrer porque consideramos que as direcções devem renovar-se.
Achamos que o Vírus correu menos bem. Ficámos desiludidos. Não com as propostas publicadas mas com a fraca participação. As propostas foram, em bastantes casos. equívocas, com pessoas a propor a publicação de projectos da sua autoria.
Em relação ao objectivo de criar novas equipas editoriais foi um fracasso, visto que o novo concurso para o JA teve somente três propostas, das quais uma não foi sequer considerada, por não satisfazer os pressupostos do concurso.

Ricardo Carvalho Crês, então, que não houve Desejo em participar de uma discussão?

José Adrião Ou não há desejo de participar de uma forma activa no debate ou, por terem surgido outros canais, o interesse por uma publicação mais institucional tenha diminuído. O aparecimento de novas formas de comunicação permite a produção de conteúdos de uma forma mais informal.

Ricardo Carvalho O que conseguimos comprovar com o JA durante estes três anos foi a constatação de não existir um desejo claro de posicionamento da grande maioria dos arquitectos face ao seu trabalho. Quem se tenha dedicado à investigação sobre a arquitectura produzida em Portugal nos últimos cinquenta anos, deparou-se com o facto de a produção arquitectónica sempre se ter escudado muito numa ideia de prática, e todo o tipo de reflexão sobre essa prática ficou sempre em segundo plano. O que aconteceu com o JA foi o confronto com esse facto. Tínhamos o desejo que novas equipas surgissem com vontade de se interrogar publicamente sobre os temas que assolam a nossa profissão mas tal não se verificou. E isto porquê? Porque a arquitectura que se faz em Portugal ainda hoje está muito constrangida por condições imediatas da profissão - pelas sua vicissitudes quotidianas. Na generalidade ainda não é possível associar a prática ao pensamento ou reflexão. Ao invés, existe o desejo de algumas pessoas produzirem investigação académica, mas por sua vez não se contaminam com a prática. Parece-me que assistimos apenas à confirmação de um facto que conhecemos há décadas.

Diálogo entre os Directores - José Adrião + Ricardo Carvalho - do JA, para iniciar a «Conversa entre Claudia Taborda, Joana Vilhena, José Adrião, José Capela, Jorge Carvalho, Pedro Cortesão e Ricardo Carvalho. Lisboa, 26 Dezembro 2008», p. 33-48

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