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Incêndio na Notre-Dame de Paris
15.04.2019
Uma Arquitectura para a humanidade

Notre Dame é uma notável obra de arquitectura.
Um daqueles edifícios onde se sintetiza o que era e é um testemunho da história da humanidade. Era, porque ao longo dos seus mais de oito séculos de vida foi sempre o repositório dos conhecimentos de cada época que nela se manifestaram. É ainda, porque toda a destruição que agora a atingiu é mais um testemunho, mais uma ferida numa história feita de muitas feridas.

A grande diferença é que agora assistimos em todo o mundo, e em directo, à destruição destas obras e, também por isso, estas destruições se tornam, contraditoriamente, tão marcantes quanto banalizadas.

Uma banalização da tristeza de assistirmos à destruição de oito séculos daquele imenso património, que nos responsabiliza agora a pensar o que fazer e como fazer.

Com inteligência e sensibilidade para que Notre Dame de Paris continue a ser, na sobreposição de todos os que ao longo dos séculos nela deixaram o testemunho das suas capacidades artísticas, a manifestação e o símbolo de uma cultura: francesa, europeia, e de toda a humanidade.

Uma cultura que sabemos bem só poderá ser a manifestação da época em que vivemos, com o conhecimento de todos os muitos passados que ali se sobrepunham, das nossas muitas dúvidas mas também das nossas imensas capacidades. A expressão daquilo que sempre foi: uma obra contemporânea de arquitectura. 

Conhecimento do passado que importa para termos em atenção, por exemplo, o facto de no meio daquela imensa destruição não deixar de ser curioso que uma das imagens mais reproduzidas fosse a queda do Pináculo, um pináculo que data 'apenas' dos trabalhos de restauração feitos por Viollet le Duc entre 1845 e 1864. Um pináculo que por sua vez veio substituir um outro destruído durante a Revolução Francesa.

Não é por isso que ele é menos importante, mas para que possamos reflectir sobre o que fazer, importa situar no tempo cada uma destas intervenções.

Ao contrário do que pensava Victor Hugo, um homem que teve uma grande influência na profunda recuperação feita no século XIX, não estaremos já numa época em que "ceci tuera cela", o livro matará a catedral, ou a imagem matará a realidade.

Não estamos em época de substituições, antes de sobreposições e de complexidades. Numa época de dúvidas mais do que de certezas.

Certezas, apenas uma: Notre Dame continuará a ser o magnífico exemplar de arquitectura que conhecemos, e que desde o início do século XII ocupa na ilha onde nasceu a cidade, no local de outras duas igrejas que ali existiam antes.

É sempre dessas substituições que é feita a história da humanidade e também a de Notre Dame de Paris.

16 de Abril de 2019

José Manuel Pedreirinho
Presidente da Ordem dos Arquitectos


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