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Construir o Futuro. Uma Nova Bauhaus para cumprir o Green Deal
03.02.2021
A 3 de Dezembro de 2020, Gonçalo Byrne interveio no 9.º Fórum da Plataforma Tecnológica Portuguesa da Construção (PTPC), organizado pelo Cluster Arquitectura, Engenharia e Construção (AEC), a propósito de “Construir o Futuro”, sob o tema “Uma Nova Bauhaus para cumprir o Green Deal”.

O debate que se seguiu às apresentações, de representantes do Governo de Portugal, das ordens profissionais (Engenheiros e Arquitectos) e de alguns sócios, foi enquadrado pelo “alinhamento do Cluster AEC com a Agenda Estratégica Portugal 2030” e foi ocasião para a sua Presidente, engenheira Rita Moura, declarar que “o Cluster se revê totalmente no modelo da “Nova Bauhaus Europeia” e pretender promovê-lo em Portugal através de um programa mobilizador e de um instrumento de financiamento de acções colectivas”. O Secretário de Estado das Infraestruras, Eng.º Jorge Delgado, agradeceu o relevante contributo da Ordem dos Arquitectos, que traduz uma “postura e o seu empenho no sector”, e sublinhou a sua “atitude proactiva de aproximação numa lógica de estreita cooperação e colaboração”.


Disponibilizamos a intervenção do Presidente.


Uma Nova Bauhaus para cumprir o Green Deal

A ideia de reactivar a Bauhaus, fundada em 1919 por Walter Gropius em Weimar (na Alemanha), transporta-nos de uma crise para outra crise: em 1919, a Europa e o mundo saíam da 1.ª Guerra Mundial e de uma devastadora pandemia de Gripe Espanhola. Cem anos depois, estamos a tentar sair da crise climática, da crise carbónica e desta Pandemia de Covid-19.

A Bauhaus transformou-se num movimento internacional de Arquitectura, Arte e Design que influenciou um pensamento criativo que produziu, desde peças de mobiliário a um conjunto de edificações, mas sobretudo uma nova filosofia e uma cultura nova da edificação e das próprias paisagens urbanas.
Em todo o mundo, numa modernidade que se prolongou ao longo do século XX, combinando arte e utilidade, ou cultura e pensamento prático, esta vanguarda que se formou em torno de Weimar ajudou a formatação de uma transição social e económica para uma sociedade industrial que se vai desenvolver para o século XX.

Cem anos depois enfrentamos desafios globais: alterações climáticas, explosão demográfica, custo económico do crescimento ilimitado, a expensas do bem-estar do planeta e dos seus recursos naturais. Edifícios e infra-estruturas são, grosso modo, responsáveis por mais de 40% das emissões de efeito estufa. O betão e o aço consomem “montanhas” de energia e produzem equivalentes “montanhas” de CO2. Temos de repensar e replanear e a Europa pode e deve liderar (n)este processo. E, por isso, o Green Deal abre uma nova prioridade: criar uma nova estratégia de crescimento com novas oportunidades para — e este é o seu objectivo — a Europa ser, em 2050, o primeiro continente climaticamente neutro. Não basta cortar nas emissões. Precisamos do modelo económico que devolva ao planeta aquilo que lhe retira, através de uma economia circular accionada por energia renovável.

Mas a Comissária Europeia, Ursula von der Leyen, quer algo mais do que apenas um projecto económico e ambiental. O Green Deal deve também, e especialmente, ser um novo projecto cultural para a Europa. Cada momento tem o seu próprio significado, nas palavras da Comissária, e esta mudança sistémica necessita das suas próprias estéticas fundindo projecto e sustentabilidade. Pretende-se um projecto colaborativo e um espaço criativo onde trabalhem, em conjunto, arquitectos, artistas, estudantes, cientistas, engenheiros e designers.

O sucesso de um novo modelo, designado “Nova Bauhaus Europeia” (NBE), não será concebível sem a ponte com o mundo da arte e da cultura e/ou com os desafios sociais do nosso tempo. Deverá mostrar que o necessário pode ser simultaneamente belo e que forma e sustentabilidade podem coexistir. Devemos abandonar ideias e caminhos adquiridos e mudar as nossas perspectivas. A NBE, a nova casa comum, ou a casa em construção, criará espaço para que isto aconteça. Trata-se de um desafio para novos caminhos, novas perspectivas do que se podem designar novos paradigmas também culturais.

O Green Deal e a transformação digital transportam já em si esta vontade de refundar uma nova cultura em resposta e em saída da crise instalada.

O pontapé de saída desta NBE propõe a criação de um movimento interdisciplinar criativo que desenvolva novos standards estéticos e funcionais em sincronia com o estado da arte das tecnologias, com o ambiente e com a questão climática. Se conseguirmos combinar sustentabilidade com bons projectos podemos saltar para além das nossas fronteiras e estimular o debate sobre novos métodos de construção e novas formas projectuais mas também dar respostas práticas à questão social de como articular uma nova vida dos europeus em harmonia com a Natureza.

E, assim, o século XXI poderá ser mais belo e mais humano, nas palavras da Comissária. A NBE deve fazer o ponto entre o mundo da ciência e da tecnologia e o mundo da arte e da cultura, assim afirma, em síntese, a 16 de Setembro, Ursula von der Leyen que, a 14 de Outubro, em conferência de imprensa sobre como repensar o modo como vivemos, lança a estratégia da nova Renovation Wave (RW) ou Onda de Renovação.
A Renovation Wave for Europe deriva da Declaração de Davos, de 2018, que define uma evolução Towards a high quality baukultur in Europe, ou seja, “Para uma cultura da construção de grande qualidade na Europa”, adoptada então pelos Ministros da Cultura europeus e stakeholders. Nessa declaração afirma-se que a qualidade em Arquitectura não é apenas definida por estética e funcionalidade, mas também pela sua contribuição para a qualidade de vida das pessoas e para o desenvolvimento sustentável das nossas cidades e áreas rurais.

Com esta iniciativa complementam-se também as medidas económicas, sociais e ambientais da estratégia da “onda renovadora” com uma essencial dimensão cultural e artística, recorrentemente mencionada no objectivo da NBE.

Ao introduzir esta nova dimensão, de um projecto cultural e inclusivo, aberto e multidisciplinar, a Comissão Europeia inicia uma viragem fundamental que pode beneficiar a transição para uma economia e uma sociedade mais sustentável e aproximar o Green Deal do bem-estar dos cidadãos. Abre a porta a uma visão integradora ou holística do ambiente construído, que procura valorizar simultaneamente os valores económicos, sociais, ambientais e culturais de uma cultura em clara transição para novos paradigmas.
Uma nova cultura que se fundamenta na partilha e no diálogo interdisciplinar tendencialmente convergente no objectivo a atingir, o da neutralidade carbónica europeia, e que fará a diferença na qualidade de vida dos seus cidadãos. A NBE é um projecto interdisciplinar para criar espaços experimentais onde cultura, arte, ciência e tecnologia se possam misturar, testar e demonstrar novas soluções de projectos sustentáveis em toda a Europa e fora dela, que sejam ao mesmo tempo atraentes e acessíveis aos seus cidadãos, reimaginando como poderá e deverá ser, no futuro, viver de modo sustentável.

Nos conteúdos, este processo prevê desenvolver-se em duas dimensões. A primeira será uma rede de pensadores, arquitectos, artistas, planificadores, paisagistas, engenheiros mas também promotores, estudantes e cidadãos trabalhando juntos em pré-figuração de soluções sustentáveis. A segunda dimensão consistirá em projectos reais a desenvolver em território europeu. E, no tempo, esta estratégia deverá desenvolver-se em três fases que serão projectar – executar – difundir.

Prevê-se, até ao Verão 2021, que a Comissão Europeia conduza um amplo processo participativo de co-criação projectual de vários programas relevantes e o início das primeiras construções já na segunda metade de 2021. Mas isso será apenas o começo, pois o objectivo é criar uma rede de diferentes conteúdos tendo em vista a transformação para uma convivência sustentável através de projectos integradores de diferentes aspectos tais como alterações climáticas, acessibilidade, coesão social, construção digital, bio-recursos sustentáveis, etc., a desenvolver em duas fases até 2022 e depois de 2022, na Europa e talvez globalmente.

Os promotores serão co-orientados por um Conselho Consultivo de Peritos Externos que incluirão cientistas, como já foi referido, arquitectos designers, artistas, planificadores, engenheiros e a sociedade civil para garantir que a NBE manterá o controlo e cumprirá os seus objectivos numa visão integradora dos diferentes saberes convocados para responder transversalmente aos novos paradigmas culturais e civilizacionais.

Mais informação sobre o 9.º Fórum PTPC/Cluster AEC e "Duas respostas de Gonçalo Byrne à Presidente do Cluster AEC2020



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