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Duas respostas de Gonçalo Byrne à Presidente do Cluster AEC
03.02.2021
No início de Dezembro, o Cluster Arquitectura, Engenharia e Construção (AEC) reuniu o 9.º Fórum da Plataforma Tecnológica Portuguesa da Construção (PTPC), sob o tema “Construir o Futuro — Plano de Recuperação e Resiliência”.

No Plano de Recuperação e Resiliência 2021-2026, apresentado em Bruxelas, cerca de 40% dos investimentos são na área da Construção. A missão do Cluster* é melhorar as condições de investimento tanto nacional como estrangeiro de modo a garantir a captação de projectos estruturantes para Portugal. O Fórum pretendeu promover o alinhamento estratégico do sector para definir uma melhor resposta aos desafios que se colocam e com maior benefício social, económico e ambiental.

Por via telemática, às apresentações de representantes do Governo de Portugal — secretários de Estado da Habitação, das Infaestruturas e Presidente do COMPETE 2020 —, das ordens profissionais — Bastonário da Ordem dos Engenheiros e Presidente do CDN — e de alguns sócios do Cluster seguiu-se uma “mesa-redonda”, com moderação pela engenheira Rita Moura, sua Presidente. O encontro foi encerrado pelo Secretário de Estado Adjunto e da Economia, Dr João Neves.

A intervenção inicial de Gonçalo Byrne, “Uma Nova Bauhaus para cumprir o Green Deal” suscitou um posicionamento e um acolhimento entusiastas por parte da Presidente do Cluster, que declarou que “o Cluster se revê totalmente no modelo da “Nova Bauhaus Europeia” e pretende promovê-lo em Portugal através de um programa mobilizador e de um instrumento de financiamento de acções colectivas. Vamos dar certamente corpo a esta iniciativa; temos muito para falar”. O Secretário de Estado das Infraestruturas, Eng.º Jorge Delgado, agradeceu o relevante contributo da Ordem, que traduz uma “postura e o seu empenho no sector”, e sublinhou a sua “atitude próactiva de aproximação numa lógica de estreita cooperação e colaboração”.


Rita Moura colocou duas questões a Gonçalo Byrne.

P Aquilo que hoje é modular amanhã será circular; é o segredo da economia circular no âmbito da Construção e é um desafio. Como vê os imperativos da reindustrialização e da economia circular no sector AEC, nomeadamente na conciliação do desenho arquitectónico, único e de “rasgo”, da sua vertente estética, com alguma modularidade de elementos construtivos?

R É absolutamente conciliável. A reindustrialização de que estamos a falar e sobretudo a questão da modularização da construção com vista à própria pré-fabricação é um tema que já vem de há muito tempo. Eu próprio tive ocasião, no início dos anos 1970, de participar num trabalho no LNEC, no Departamento de Arquitectura, precisamente sobre a coordenação dimensional modular na produção de elementos pré-fabricados. É claro que hoje em dia a pré-fabricação se coloca em termos mais abrangentes e mais vastos do que então. Estamos a falar de muito maior flexibilização mas sobretudo de uma flexibilização na produção que está também cada vez mais atenta e a ser cruzada com novos materiais, a serem reciclados os materiais existentes ou os designados materiais renováveis. Por exemplo, é muito interessante e curioso discutir esta questão da modularidade ou do dimensionamento modular na pré-fabricação da construção em madeira. É uma questão que no nosso horizonte próximo, no nosso país, está ainda um pouco atrasada — por condições económicas, por outras e várias condições mas que no centro da Europa já está com avanços imensamente grandes. Quer na produção de elementos estruturais quer na produção de painéis, inclusivamente de painéis de paredes modulares. de pequena, média e grande dimensão, já com as instalações e equipamentos. Há todo um catálogo, ima possibilidade de utilização que obviamente não corta ou não entra em limite ou em choque com aquilo que se chama a capacidade imaginativa, a capacidade criativa do próprio desenho. A criação de famílias dimensionais de elementos pré-fabricados é como utilizar um alfabeto de outra espécie que deixa grande liberdade também na composição do projecto. E, portanto, esta ligação em Arquitectura é fundamental — a Arquitectura tem uma dimensão de arte mas uma arte pública e que está claramente num mundo de transversalidade com outros mundos de conhecimento e, portanto, não vejo de modo nenhum uma limitação; vejo antes um desafio nesta questão que coloca.

P Na apresentação que fez, a criação de uma Nova Bauhaus, que classificou como um movimento multidisciplinar, criativo, junta ciência e tecnologia com arte e cultura, numa Renovation Wave for Europe. O Cluster revê-se totalmente nesta iniciativa, desde logo a acolheu com muito bons olhos e pretende promovê-la em Portugal, envolvendo arquitectos, engenheiros, designers, todos os que se entendam que devam ser envolvidos, cientistas, através de um instrumento de financiamento de acções colectivas, um programa mobilizador que terá de ser estudado com detalhe. Os arquitectos estão disponíveis para participar nesta iniciativa?

R A resposta imediata é: estamos entusiasticamente disponíveis para participar! A iniciativa tem características interessantes e algumas até de certo modo inovadoras e que têm a ver com esta ideia lançada pela Comissária Europeia, a Senhora von der Leyen. Foi de certo modo surpreendente este tipo de iniciativa quando se está perante uma mudança ou uma situação de enormíssimo desafio perante aquilo que é mais ou menos entendido como uma ameaça colectiva que é, em certa medida, o rumo suicidário do planeta e que é reconhecido por todos os países signatários do Tratado de Paris, que cria metas extremamente ambiciosas. Essas metas ambiciosas implicam respostas colossais e em tempos muito, muito, extremamente, curtos porque chegar a 2030 com uma quebra de cerca de 60% na chamada pegada carbónica e a neutralidade em 2050 tem consequências brutais. Hoje, e todo este discurso passa por obrigar a repensar novos modelos, obriga a pensar em todos os domínios e quando o desafio é lançado claramente a um mundo da construção, da construção do futuro, da adaptação do construído actual e da reconstrução do futuro porque a Renovation Wave tem muito a ver com a reciclagem. Nós estamos a viver no século do prefixo “re”. A economia circular não é mais do que isso: tudo se está a repensar, a readaptar. Eu diria, no fundo, a renascer. Não sei se não estaremos perante uma espécie de novo Renascimento, um pouco à semelhança do século XVI, obviamente em termos completamente distintos porque a Cultura hoje é completamente distinta, as tecnologias nem se fala e também essa transição digital é fundamental ao lado do Green Deal. Todo este desafio para repensar uma produção só faz sentido com uma base transdisciplinar, com uma base onde ninguém está por si só, ninguém está sozinho. Este é um dos aspectos. O outro aspecto é a pulverização, a fragmentação do mundo do conhecimento numa miríade muito grande de especializações ou de especialidades que muitas vezes são tendencialmente redutoras porque se vão aproximando e fechando um pouco. Há uma espécie de desafio ao outro que é pôr em diálogo estas especialidades. É necessário criar perspectivas integradoras, é necessário criar perspectivas holísticas porque de facto estamos todos. Repare-se que neste apelo a Comissária evoca a Arte mas que vêm obviamente os Engenhos. As Engenharias são fundamentais. A gestão do génio, da sabedoria é fundamental e até se aproxima da Arte mas também o objectivo é que tudo isto está ao serviço dos utilizadores, ao serviço do cidadão e de uma maneira claramente inclusiva e a culturização desta retoma é o grande desafio. E isso só é possível com os engenheiros.
Nós não vamos lá sozinhos, temos de lá ir com todos. Este é um dos grandes aspectos e a sua grande dimensão cultural deste apelo da Comissária.

O Secretário de Estado das Infraestruturas, Jorge Delgado, comentou estas palavras. “É de saudar e de nos congratularmos por vermos uma OA e o seu Presidente numa estreita cooperação e colaboração e numa atitude proactiva de aproximação ao sector numa lógica menos arquitectónica, no sentido de conceptual, acrescentando-lhe esta preocupação de colaboração e de participação (…). E, portanto, agradecer-lhe a sua postura e o empenho neste sector que acho que é muito relevante e é um contributo muito importante”.

O Secretário de Estado da Economia, João Neves, encerrou o Fórum deixando claro que o Ministério da Economia vai estar muito presente “naquilo que é a possibilidade de ajudar a que os mecanismos de transformação e de recuperação económica e de capacidade competitiva das empresas possam ter características mais ágeis, mais fáceis do que a simples observação das condições de mercado. (…) Faremos aquilo que for possível, no quadro difícil em que estamos, para ajudar a que esse processo seja o mais interessante possível para o conjunto da economia mas sobretudo para o conjunto das empresas que este Cluster representa”.

Visualizar o 9.º Fórum PTPC/Cluster AEC 2020


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* O Cluster AEC foi reconhecido em 2017.
Reconhecida a relevância económica do sector mas também a necessária promoção da sua transformação e da modernização do seu tecido industrial e empresarial, atenta à transição ecológica e energética, trata-se de uma rede de empresas, entidades públicas e instituições que partilham uma visão estratégica para, através da cooperação, contribuir de forma decisiva para a afirmação do sector (AEC) português e atingir níveis superiores de capacidade competitiva nos mercados nacional e estrangeiros.

A imagem anexa ilustra os eixos estratégicos de actuação do Cluster:
1 Investigação, Desenvolvimento e Inovação
2 Qualificação e competências
3 Internacionalização
4 Políticas públicas
5 Cooperação e parcerias

O Pacto Sectorial para a Competitividade e Internacionalização foi assinado em Março de 2019 pelo então Ministro Adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira, e pela PTPC, entidade gestora do Cluster.

Os programas e projectos de apoio, financeiros e não financeiros, promovem a inovação de PME, o aumento da sua competitividade através da colaboração, a resistência à crise Covid-19 e a criação e expansão de uma plataforma digital que permita o desenvolvimento da inovação na cadeia de valor do sector da Construção e do Ambiente Construído.

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