provedor da arquitectura 2006-2011
Notas do Provedor IX
09.03.2010
Chegam a esta provedoria comentários sobre a política cultural da ordem e em especial no que se refere à sua actividade editorial.
As sucessivas organizações profissionais de arquitectos no nosso país, a Sociedade dos Arquitectos Portugueses, o Sindicato Nacional dos Arquitectos, a Associação dos Arquitectos Portugueses e a actual Ordem, embora de forma descontínua no tempo, têm mantido com os associados e a população vínculos de comunicação periódica ou ocasional sustentados por atitudes culturais de onde se destacam a implantação do Movimento Moderno e a revista Arquitectos, o 1º Congresso e a publicação das actas, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa e as sucessivas edições da publicação a que deu origem, tudo no âmbito de uma actividade editorial de sua iniciativa e responsabilidade e que hoje tem encontrado continuidade nas componentes da informação e da divulgação na existência simultânea de dois instrumentos: o boletim informativo e o jornal-revista.

Apontam, com frequência, os comentários que nos chegam às mãos duas ordens de críticas que aqui referimos sem que sobre elas formulemos juízos de valor pois nos parece que deverão ser objecto de discussão no próximo Congresso cujo tema, “Uma Política de Arquitectura”, inclui, como é óbvio, um substrato cultural.

A primeira dessa ordem de comentários diz respeito à frequência de referências que é dada a determinada corrente de pensamento arquitectónico actual, vigorosa no nosso país, com citações elogiosas em circuito fechado de que resultam situações do lóbi cultural ou gérmens de um “estilo oficial” que aparentemente a Ordem acarinha.
Um dos exponentes sobre esta matéria deu-se ao trabalho de, a partir da análise de uma dezena de números de exemplares do Jornal Arquitectos, verificar que um único autor e os seus parceiros culturais ocupam uma percentagem avassaladora de páginas destinadas à divulgação de trabalhos profissionais.
“São sempre os mesmos…”, desabafa.

Não pondo em causa o valor dos trabalhos referidos, recorda-se que, sendo a arquitectura hoje, para além do seu carácter cultural, uma actividade económica, onde a publicidade desempenha papel motor, esta situação pode configurar uma discriminação positiva por parte da Ordem em relação a uma minoria dos seus associados com prejuízos dos restantes.

Num mesmo registo, mas referente ao passado, um cidadão, não arquitecto, observa que, tendo curiosidade em conhecer melhor o autor da moradia que habita com agrado (Artur Pires Martins (1914-2000); autor da Escola Primária de Campolide, de edifícios de habitação colectiva em Olivais e Chelas, divulgador da arquitectura moderna portuguesa e dirigente associativo), não encontrou o seu nome na publicação resultante do Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX e interroga-se sobre a clareza dos critérios utilizados na selecção de obras e autores.

Os dois casos apontados localizam-se em edições da responsabilidade directa do organismo profissional, fora da segunda ordem de comentários chegados à Provedoria sobre as politicas cultural e editorial do organismo profissional.

Existe na classe uma tradição de investigação individual de que têm resultado publicações que, embora em número reduzido, assumem papel relevante no panorama intelectual do país.
Recordam-se autores como Raul Lino, Keil do Amaral ou Jorge Segurado, entre outros que, à ilharga da produção de índole universitária, têm alimentado, embora parcamente, a literacia de temática arquitectónica e conseguiram fazer publicar as suas obras.

Dada a complexidade da actividade editorial de hoje que afasta essa possibilidade, chegam à Provedoria lamentos de arquitectos que investigam por sua conta e risco e aguardam publicação das suas obras sem encontrarem no organismo profissional incentivos e apoio adequado, o que inclusivamente nem sempre passa por encargos financeiros.

Sendo o Provedor da Arquitectura uma espécie de “consciência da Ordem” aqui se remete o tema para reflexão na esperança que venha a ser incluído em futuros programas de actuação.

Francisco Silva Dias
Setembro 2009

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