outros prémios internacionais
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Prémio ICAR-CORA
21.08.2012
O Prémio ICAR-CORA 2011 distinguiu este ano dois portugueses. Marta Sequeira com o primeiro prémio e Hugo Nazareth Fernandes com o segundo.

A arquitecta Marta Sequeira venceu o 1º Prémio com a sua tese de doutoramento intitulada “A Cobertura da Unité d'Habitation de Marselha e a Pergunta de Le Corbusier pelo Lugar Público”. (Universitat Politècnica de Catalunya. Departament de Projectes Arquitectònics). A bibliografia existente sobre a Unidade de Habitação de Marselha de Le Corbusier – uma das mais importantes propostas de habitação colectiva do século XX –, assenta essencialmente no estudo do conjunto dos apartamentos que constituem o edifício. No entanto, Le Corbusier dá-nos vários sinais de que o que se encontra no topo do bloco habitacional apresenta grande relevância. Escreve Les maternelles vous parlent, em que centraliza a sua observação nas coberturas das unidades de Marselha e de Rézé-les-Nantes. Aí faz publicar, assim como em Œuvre complète, uma imagem inusitada, em que representa o volume paralelepipédico que corresponde ao conjunto dos apartamentos da Unidade de Marselha como pouco mais que uma mancha branca, como uma base cuja única função e interesse é a de suportar os objectos que lhe são colocados em cima. Tal como Le Corbusier o fez na altura da elaboração desta imagem, esta dissertação apresenta a cobertura como o objecto principal da composição, miradouro a partir do qual se observa a cidade corbusieriana da época, e estímulo a partir do qual se formula a Pergunta pelo Lugar Público – a mesma que Le Corbusier colocava na altura da elaboração deste toit-terrasse exemplar. Trata-se de uma questão que apresenta, nos nossos dias, uma grande vigência, sempre que se procura definir uma ideia de lugar público que se adeqúe à sociedade actual, e sempre que nos deparamos com as dificuldades que essa diligência implica. Constatamos então que é comum, a ideia de que existe uma “ruptura em relação à história” na génese dos lugares públicos das cidades de Le Corbusier, de que os seus espaços de reunião preconizam uma separação entre o seu tempo e a experiência precedente. Esta crença é alimentada, por um lado, pela interpretação deficiente de algumas observações do próprio Le Corbusier – sendo que as suas palavras de ordem, que utilizam expressões como “civilização maquinista”, “o novo espírito”, “arquitectura de amanhã”, turvam as suas evocações do passado –, e, por outro, pelo obscurecimento das referências paradigmáticas dos seus lugares públicos, através da evidência ofuscante do seu carácter inovador. No entanto, ao desenhar estes lugares de representação da comunidade, Le Corbusier não faz mais que recriar a espacialidade grandiosa e pitoresca dos lugares públicos da Antiguidade, os lugares de representação e glorificação do colectivo que estiveram na origem da nossa cultura, e que constituem o âmago da nossa tradição: a praça pública grega, e o espaço foral romano. Através de um apurado sentido histórico mas também de abstracção – que consiste numa das mais preciosas conquistas do pensamento moderno – e através da suspensão voluntária da sucessão e compartimentação temporal, assim como das subsequentes explicações evolutivas e catalogações, Le Corbusier faz uso de uma visão sincrónica dos lugares públicos da Antiguidade, vinculando o passado ao presente, estabelecendo entre eles contactos, sobreposições. Foram os próprios desenhos e maquetas, do toit-terrasse da Unidade de Habitação de Marselha e de outros lugares públicos de Le Corbusier, que foram dando pistas, assim como os seus escritos e os vestígios das suas viagens e investigações, verdadeiros indícios dos elementos que ele poderá ter visto e evocado no momento de projectar. A partir de aí, foi possível percorrer um caminho dedutivo até se chegar à hipótese e, simultaneamente, à sua confirmação, ou seja, a uma conclusão que partiu de um olhar absolutamente descomprometido relativamente ao objecto de estudo. Desembaraçando-nos de um enredado de ideias preconcebidas, sobre as quais se construiu uma ideia pouco objectiva de modernidade, demonstra-se que o lugar público de congregação corbusieriano do período imediatamente subsequente à Segunda Grande Guerra não só não estabelece uma cisão com o passado histórico, como constitui, ele próprio, o testemunho da inabalável continuidade da criação humana ao longo de todos os tempos.

A tese pode ser consultada aqui.
Esta tese ganhou igualmente o concurso Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas 2009, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e Fundação Calouste Gulbenkian, O que levou à publicação do livro Para um espaço público. Le Corbusier e tradição greco-latina na cidade moderna. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2012. 


O arquitecto Hugo Nazareth Fernandes venceu o segundo Prémio ICAR-CORA 2011. O título da tese é “Contributos para uma hermenêutica da Tradição no Modernismo Português – António Varela o Legado do Invisível – Composição, traçado e simbólica de um arquitecto à sombra de gigantes (1930-1940)” (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisbon).
Segundo o Relatório Final do Júri do Prémio ICAR-CORA, a tese propõe a descodificação dos mecanismos mentais de composição que orientam, para alguns, a operatividade geométrica do desenho arquitectónico. No caso de Varela, estes mecanismos geram padrões de regulação que funcionam e produzem efeitos de articulação entre tradição e modernidade. A tese mostra como, na obra do arquitecto, esta articulação adquire sentido dentro de uma "família simbólica", onde a geometria pertence à ordem do sagrado e o património geométrico permanece invisível à primeira vista. Visando a assimilação da linguagem moderna, verifica-se que os esquemas e os traçados da composição arquitectónica assentam, de facto, em elementos geométricos psíquicos e canónicos. Tratando um material inédito, ou seja, o trabalho e os desenhos de Varela, a tese desenvolve uma hermenêutica assente na herança de arquétipos e enfatiza como, entre tradição e modernidade, o racionalismo se pode relacionar com o regionalismo, e o purismo com o classicismo.
Refira-se a sua publicação para breve, pela Editora Caleidoscópio, sob forma de texto resumido e adaptado, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, do ISMAT e da Ordem dos Arquitectos.


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