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Prémio Aga Khan . Resultados
09.09.2013
Prémio Aga Khan para cinco projectos que mudaram a vida de comunidades muçulmanas
Como é que se consegue que a construção de um cemitério islâmico na Áustria decorra sem polémicas? Como se convence os comerciantes de um bazar iraniano a juntar fundos para a reabilitação do espaço? Como se unem duas cidades? Como se faz renascer o centro histórico de uma cidade palestiniana, criando ao mesmo tempo postos de trabalho para a comunidade local? Como se convence um médico a viver num contentor?

As questões sociais, muito mais do que as técnicas ou as arquitectónicas, dominaram a conferência de imprensa na qual foram anunciados os cinco projectos vencedores do Prémio Aga Khan para a Arquitectura 2013, no Hotel Tivoli, em Lisboa. Faroukh Derakhshani, o director do prémio patrocinado pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento com o valor de um milhão de dólares (cerca de 760 mil euros) e que desde 1977 é atribuído a cada três anos, explicou que o número de finalistas depende inteiramente da decisão júri. Este ano foram escolhidos cinco de entre 20 finalistas, seleccionados por sua vez de entre perto de 500 candidaturas.

Assim, o milhão de dólares será dividido de forma igual entre o Centro de Cirurgia Cardíaca Salam, em Cartum, no Sudão, a revitalização do Centro Histórico Birzeit, em Birzeit, Palestina, a ponte que liga Rabat e Salé em Marrocos, a reabilitação do Bazar de Tabriz no Irão, e um cemitério islâmico em Altach, na Áustria. Trata-se de projectos realizados em locais onde haja uma “presença significativa” de comunidades muçulmanas, e que têm que estar completos e ter mais de um ano de utilização, mas menos de seis. Podem ser grandes edifícios, ou intervenções pequenas, mas devem ter um impacto nas sociedades onde se situam.

O arquitecto britânico de origem tanzaniana que foi nesta edição presidente do júri, David Adjaye, disse que o difícil processo de selecção “foi muito excitante” sobretudo porque permitiu o “reconhecimento de formas diferentes de prática arquitectónica, da importância das infra-estruturas, das formas de restauro que vão para além das tradicionais, e novas formas de trabalhar com as comunidades”.

Sentados na sala do Tivoli, os vencedores dos cinco prémios contaram as suas histórias.

Revitalização do Centro Histórico de Birzeit, Palestina
David Adjaye admirou em particular a “escala de ambição” deste projecto lançado por uma ONG palestiniana, o Centro Riwaq para a Conservação da Arquitectura. Tudo começou com Birzeit, mas o objectivo é alargar este plano de reabilitação a 50 vilas palestinianas (até agora já existe em nove).

“Criação de emprego: é a palavra-chave deste projecto”, explica ao PÚBLICO Suad Amiry, fundadora do Centro Riwaq. “Muitos palestinianos trabalhavam na construção em Israel, mas a partir de 2000 o Governo israelita decidiu que não podiam continuar a trabalhar, e foi buscar operários a outros lados”. O projecto iniciado em Birzeit envolveu a comunidade precisamente porque aproveitou essa mão-de-obra que ficara desempregada para a reabilitação do centro histórico.

O trabalho inicial foi um levantamento de todo o património histórico em risco de se perder nas aldeias de vilas palestinianas. No final foram seleccionadas 50 localidades por serem aquelas que tinham mais património. A aposta, continuou Amiry, foi na reabilitação dos espaços públicos. “Quisemos fazer os serviços nos espaços públicos melhores no centro do que noutras zonas da cidade”. Isso atraiu as pessoas, o que, por sua vez, atraiu os negócios. E, a pouco e pouco, os centros históricos começaram a transformar-se.

Cemitério Islâmico, Altach, Áustria
Os muçulmanos que vivem na Áustria não tinham, até há pouco tempo, um local para enterrar os seus mortos, e os corpos dos que morriam eram enviados para os países de origem. O cemitério (projecto do atelier de Bernardo Bader) veio dar resposta a um desejo da comunidade muçulmana de poder enterrar os seus mortos de acordo com os seus ritos, mas, segundo explicou a arquitecta Eva Grabherr, envolveu outros grupos, nomeadamente a Igreja Católica, “cujo apoio foi muito importante”.

Eva Grabherr admite a existência de islamofobia na Áustria, tal como noutros países europeus. Mas afirma que o facto de estarem a trabalhar num cemitério ajudou a ultrapassar eventuais polémicas. “Cemitérios levantam muito menos problemas que as mesquitas. Sabíamos disso e, para termos uma estrutura islâmica, decidimos começar pelo cemitério. É mais difícil as pessoas serem contra um cemitério”.

As paredes são de betão rosáceo, há cinco locais de enterro separados, além de um edifício e das salas de oração, e as paredes exteriores são decoradas com as estrelas octagonais tradicionais na arte e arquitectura islâmicas.

Reabilitação do Bazar de Tabriz, Irão
O bazar da cidade iraniana de Tabriz tem a sua origem no século X e, naturalmente, foi-se degradando por séculos de uso. No final do século XX já estava bastante deteriorado, e, apesar de ser o centro comercial mais importante da cidade, os clientes começavam a diminuir. Era preciso reabilitá-lo, mas os comerciantes achavam que essa era a obrigação do governo e não queriam pagar. Como é que se convenceram a fazê-lo.

Akhbar Taghizadeh, um dos arquitectos do atelier ICHTO East Azerbaijan Office, contou a história. “Os bazares foram construídos pelo povo mas com o tempo as pessoas esqueceram-se que era propriedade delas. Inicialmente os comerciantes tinham três medos: não sabiam o que significava reabilitação, pensavam que era muito caro, e receavam ter que encerrar as lojas durante as obras”. Os arquitectos escolheram então uma pequena secção do bazar onde o governo começou por pagar 90% das obras e os comerciantes 10%.

Quando viram o resultado da intervenção – o regresso dos clientes – os vendedores das outras secções também quiseram. “No final, a comunidade do bazar estava a pagar 90% dos custos, e o governo apenas 10%. Todos ficaram felizes”.

Centro de Cirurgia Cardíaca Salam, Cartum, Sudão
“Usar a simplicidade”. Esta é a receita do atelier italiano Studio Tamassociati para um projecto como o deste hospital com 63 camas e três blocos de operação na capital sudanesa. Essa simplicidade passa por “identificar um problema e encontrar uma solução”, dizem os arquitectos.

Foi preciso “usar o que estava disponível” e isso incluiu, por exemplo, a reconversão dos contentores usados para o transporte de materiais de construção em espaços para albergar os médicos vindos de outros países. “Um dos médicos disse-nos: se fizerem as casas num contentor, esqueçam, eu não volto”, contou um dos arquitectos italianos. No final, os contentores foram uma agradável surpresa porque os arquitectos olharam para eles “com a ideia de desenhar um espaço agradável, e isso não é uma questão de dinheiro”.

Projecto de Infra-estrutura urbana Rabat-Salé, Marrocos
Era preciso ligar duas cidades: de um lado Rabat, a capital marroquina, do outro Salé, uma cidade pobre que cresceu com vários problemas de planeamento urbano. A ideia era criar um novo centro urbano, mas o projecto era mais ambicioso e aspirava a uma regeneração em grande escala de toda a área. A ponte Hassan II, do atelier Marc Mimran Architecture, veio dar essa resposta e tornou-se, segundo o júri que o premiou, “um modelo sofisticado e coeso para projectos de infra-estrutura futuros, especialmente em locais de rápida urbanização”.

Um elemento que ajudou a tornar a ponte um novo ícone das duas cidades foi, segundo o arquitecto Marc Mimran, o facto de ter criado uma espécie de “telhado”, abrindo um novo espaço urbano sob ele, o que veio retirar a carga por vezes negativa que uma infra-estrutura de grande dimensão pode ter.

Alexandra Prado Coelho

Fonte: Público on-line



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